3.11.09

O Caso do Blogue Novo

Agora eu estou aqui.

Vejo vocês lá!

28.10.09

O Caso do Cavalheirismo

O Maridinho sempre foi muito cavalheiro. Já meu pai costuma não carregar a mala da minha mãe e, tendo oportunidade, nem a própria mala.

Tem gente que diz que o cavalheirismo morreu. Outros bradam pela necessidade de seu retorno. E eu? Eu sei lá.

Entendo que o cavalheirismo possa ser encarado como gentileza. Seriam sinônimos de cavalheiro as palavras “educado” e “solícito”. Concordo plenamente que é bom conviver com uma pessoa que tenha essas qualidades.

Entretanto, tanto aqueles que resmugam que o cavalheirismo desapareceu quanto os que exigem sua volta costumam encará-lo com um significado mais específico, isto é, aquele conjunto determinado de ações do homem para com a mulher. E esse cavalheirismo me desagrada profundamente: pra variar, ela fica lá, como uma pata choca, esperando que o homem faça alguma coisa.

Além disso, tem alguns itens da receita pronta do cavalheiro que não fazem muito sentido, como aquela história de que o homem deve pagar a conta do restaurante, levar flores e abrir a porta do carro. Poxa, se eu também trabalho e também tenho dinheiro, não vejo razão para ele pagar tudo (existe a tese “quem convida paga”, que me parece mais lógica. E eu sempre gosto de rachar. Agora, se o Bill Gates me chamar para jantar no restaurante do Alain Ducasse em New York, eu não vou brigar com ele pelo privilégio de pagar a conta, que deve ser equivalente a muitos dias do meu salário. Mas eu levaria um saquinho de balas Chita para demonstrar minha gratidão). Eu também posso dar flores (embora tanto o Maridinho quanto eu prefiramos oferendas em chocolate). E se eu estou dirigindo (o que é raro, admito, porque eu dirijo mal, me perco com facilidade e tenho um talento incomum para exterminar espelhos retrovisores), por que não abrir a porta para o passageiro?

Em suma, eu também posso (e devo, acredito) ser cavalheira com o Maridinho, isto é, educada e solícita. E eu sou. Mas quando aquele povo lá de cima fala em cavalheirismo, elas não estão pensando em mim, estão?

E tem outra: será que o cavalheirismo é mesmo bom para mim? Vejam só: o Maridinho é bem mais alto e forte do que eu. Quando vamos ao mercado, ele leva as sacolas de refrigerantes e eu levo as sacolas de guardanapos. É claro que isso me é agradável e confortável. Só que o resultado é que eu não uso meus músculos e fico ainda mais fraquinha que já sou.

Por outro lado, por enquanto não me sinto apta a carregar para casa o garrafão de água mineral de 20 l, que pesa quase metade do que eu (e talvez eu nunca adquira essa capacidade, mesmo depois do curso de Krav Magá que estou ambicionando fazer).

Pensando bem, não tenho nada contra uma divisão de trabalhos racional. Isto é, baseada nos fatos e na situação e não nos estereótipos. Assim, acho que faz sentido que, na hora de pagar o jantar, quem ganhe mais pague mais. Se a porta está fechada, que quem esteja na frente abra. Quando se quer um desconto, que quem tenha mais jeito peça. É verdade que o Leo costuma carregar mais peso que eu, mas eu fizer compras com uma pessoa mais fraca, sou eu quem vai carregar mais, é claro. Quando a gente viaja, o Leo bússola humana cuida do transporte e a Lud tagarela da comunicação. E o meu pai é folgado mesmo.

É claro que é muito mais fácil mulheres e homens terem seus papéis pré-determinados e todo mundo obedecer às regrinhas. Mas eu acho que papéis pré-determinados não estão com nada, principalmente quando a sociedade muda e eles não acompanham.

Não estou querendo dizer que eu quero que o cavalheirismo morra e que todo mundo seja grosso. Ok, o cavalheirismo de forminha de torta eu quero que morra, sim. Só que também acho que todo mundo deve ser gentil, polido e educado. Cada um do seu jeito e do jeito que melhor funcionar.

25.10.09

O Caso das Revistas Femininas

Sempre fui fã de revistas femininas. Quando fiz Comunicação Social, um dos meus objetivos era escrever para elas. Já defendi, com mais ardor do que análise, que o jornalismo feminino era, sim, jornalismo, e tão válido e digno quanto qualquer outro.

Cheguei mesmo a ter algumas matérias (duas, se não me engano) publicadas nelas. Até me pediram uma terceira, mas confesso que, na hora das entrevistas, refuguei: a pauta continha as expressões "truques sexuais", "prostitutas" e "usam com seus clientes". (Sim, é essa revista mesmo que vocês estão pensando.) Eu era ainda mais puritana do que sou hoje (uma característica que sempre deplorei) e acabei passando o serviço para uma das minhas melhores amigas, que deu conta da tarefa em dois tempos. (Acabo de perceber que a revista nunca mais me encomendou nada. Talvez a matéria cabeluda fosse um rito de iniciação no qual eu falhei miseravelmente.)

De uns tempos para cá, contudo, as revistas femininas têm me irritado e aborrecido em igual medida. Será que elas mudaram, eu mudei, ou todas as alternativas acima?

A impressão que eu tenho hoje quando as leio é que se eu não for jovem, magra, branca, bela, sedutora, de cabelos longos e lisos, com um ou mais homens em minha vida e várias roupas, cosméticos e acessórios novos em meu guarda-roupa, eu estou deixando de alcançar meu potencial total como mulher.

Pode ser que eu seja muito impressionável, e que outras pessoas leiam revistas femininas e não achem nada disso. Mas vejam só: tenho em mãos uma revista Nova de fevereiro de 2004 (é meio antiga, eu sei, mas é a que está disponível). Ela tem 146 páginas (contando as capas).

66 das páginas têm fotos de mulheres. 4 das mulheres (sendo que uma delas é o "antes" de uma transformação) têm cabelos não-lisos (sendo que ondas artísticas feitas sobre cabelo escovados contam como liso); 1 mulher é negra (numa foto pequena, entre duas amigas brancas). Não tem nenhuma mulher que aparente ter mais de 25 anos.

99 páginas são conteúdo. 39 são propaganda. 32 listam regras para o relacionamento com o sexo oposto, incluindo sexo. 34 páginas são dedicadas a matérias sobre diversos produtos. As páginas que faltam para fechar a conta incluem horóscopo, cartas das leitoras, endereços etc.

Deixando para depois a análise das matérias "como agarrar seu homem", talvez a maior maldade das revistas femininas seja a mensagem não-escrita é que você pode, sim, se transformar em uma das fotos da revista. É só consumir! A lista não tem fim: nessa única revista Nova, temos cera de depilação, tinta para o cabelo, regularizadores intestinais (?), roupas, perfumes, absorventes, jóias, bronzeadores, mais tinta para o cabelo, objetos de decoração, roupas, mais roupas, bolsas, sapatos, tratamentos de beleza exóticos como banho de pó de pérolas, xampu, creme anti-celulite, controlador de brilho da pele, creme antioxidante, creme com protetor solar para os cabelos, rímel, perfumes recém-lançados, corretivo, lápis de olho, batom, celular, miojo light, sombra de olho, brilho, chinelos bordados, sachê com ervas afrodisíacas, gel redutor, cosméticos para quem malha, sucos naturais, mouse decorado, revista de moda, revista feminina, pincéis de maquiagem, iluminador, blush líquido, curvex, creme de limpeza, sabonete facial, sabonete líquido, lenços antibrilho, loção tônica, demaquiante, hidratante para o rosto, hidrantante para o corpo, hidratante para as mãos, hidratante para a região dos olhos, sais de banho, exfoliante, loção para os pés, loção firmadora, ufa, cansei (mas tem mais).

O que até deve funcionar, para uma parcela da população quem tem tempo, dinheiro e genética a seu favor. Mas e se você não for (ou não quiser ser, ou não puder ser) jovem, magra, branca, bela, sedutora, de cabelos longos e lisos, com um ou mais homens em sua vida e várias roupas, cosméticos e acessórios novos em seu guarda-roupa? A mulher ideal das revistas femininas é um retrato bastante redutor, não? (Sim, eu sei que isso tudo vem a ver com o capitalismo, e com o fato que a revista custa dinheiro para ser produzida, que o dinheiro vem dos anunciantes. Mas será que tem de ser assim mesmo?)

Um amigo sugeriu que eu simplesmente deixasse de lê-las. Seria uma solução, sem dúvida. Só que essa mesma revista tem matérias sobre serviço voluntário, auto-exame de pele e mamas, dicas para progredir na carreira, formas de diminuir o risco de ter câncer, perfis de profissionais que ganham para viajar, educação financeira. Outras revistas femininas também trazem pautas que me interessam, como saúde, relacionamentos familiares, mulheres em posições de poder. As revistas de variedades, como a Veja, cobrem parte desses assuntos, mas geralmente o enfoque é neutro (ou seja, masculino). Então as revistas femininas têm, sim, a sua utilidade para as mulheres.

Minha conclusão é que as revistas femininas brasileiras atuais são basicamente esquizofrênicas. Matéria sobre auto-estima de um lado e modelos jovens, magras, brancas, de cabelo liso etc. de outro. Ecologia X consumismo. Saúde X horóscopo. Mulheres na política X celebridades.

O que fazer, então? Abandoná-las de todo? Ler só as partes que eu "aprovo"? Mas se eu comprá-las vou estar financiando todas as partes, não vou? E apesar dos pesares eu não consigo desaprová-las totalmente. Não sei se, caso todas elas fechassem, as mulheres estariam mais bem-servidas. Porque elas, bem ou mal, são um espaço de manifestação feminina.

Acho que precisamos é de uma revista feminina feminista. Que não pergunte para a futura candidata à presidência do Brasil se ela perdeu peso e como - ou que pergunte a mesma coisa aos futuros candidatos, antes de interrogá-los como sobre eles conciliam a vida familiar com a política e qual é sua receita preferida. Que mostre mulheres de todos os tipos e cores. Que não faça perguntas tolas a celebridades bobonas. E que acabe com os horóscopos!

24.10.09

O Caso do Comentário do Caso dos Comentários

No último post, a Setembro! fez um comentário muito pertinente: se ninguém percebeu, nem me tratou diferente quando eu parei de usar maquiagem/esmalte/etc, então como eu tenho tentado passar esses meus novos conceitos às pessoas que não acessam meu blog?

Funciona assim: estou em um grupo. Alguém comenta qualquer coisa sobre aparência/beleza/cosméticos. Aí eu anuncio orgulhosamente: pois EU não uso mais maquiagem.

As pessoas me olham perplexas. E percebem que, de fato, estou de cara limpa. Observe que o "mais" é uma palavra-chave, porque existe gente que não usa maquiagem mesmo. Mas o "mais" implica que já usei, que já experimentei seus "benefícios", e que abri mão.

Aproveito o momento de silêncio atordoado e me explico. O engraçado é que, nesse momento, gente que não estava nem notando se eu estava ou não de batom fica me questionando. Como se os meus cromossomos XX me fizessem automaticamente uma viciada em produtos de beleza. Como se os cosméticos fossem um privilégio. Como assim você não quer ficar BONITA?

Então a conversa cai no feminismo e os ânimos se inflamam. Surge a oportunidade de esclarecer alguns pontos polêmicos. Não, as feministas não querem ser iguais aos homens. Não, o feminismo não é o contrário do machismo (e logo, tão ruim quanto). Não, feminista não é palavrão.

Não vou dizer que convenço todo mundo, nem que as mulheres presentes esvaziam imediatamente a bolsa no lixo mais próximo. Até porque o assunto é complexo e não se esgota em uma única conversa. Mas faço o povo pensar um pouco. E sim, consigo uns adeptos.

Mas vou confessar: abandonar os cosméticos é bom principalmente para mim. Porque, para usá-los, eu tinha que ficar prestando a maior atenção no meu rosto, na minha pele, nos meus cílios, nas minhas cutículas, no meu cabelo, em tudo que que eu queria "corrigir" "disfarçar" e "realçar". Agora me olho no espelho a uma distância muito mais saudável de três palmos, e gosto do que vejo. Sim, o meu experimento teve um efeito colateral engraçadíssimo: estou me achando. (Minhas irmãs vão revirar os olhos, porque elas acham que eu já me achava. Eu acho.)

Por isso vou me maquiar a contragosto para ser madrinha no casamento da minha amiga. A festa seria um momento fantástico para a bombástica declaração visual "Não sou enfeite". Mas enfim. Estou pensando seriamente em lavar o rosto depois das fotos.

23.10.09

O Caso dos Comentários

Muitos comentários interessados e interessantes no último post. Acho muito legal que as pessoas se manifestem.

Eu concordo que nem lá, nem cá, ou nem tanto ao mar nem tanto à terra, é mais equilibrado. Sempre defendi que “a virtude está no meio”. E que é mais fácil, mais confortável e mais agradável para todo mundo, inclusive para mim, se conformar às convenções sociais de vez em quando (e é o que vou fazer, fantasiada de madrinha de casamento). Porque a gente vive em sociedade, afinal.

Só que... bem, eu tenho pretensões. De mudar o mundo, né. Porque eu acho que do jeito que está não está tão bom assim. Não é que eu não possa usar maquiagem. É que eu não quero. Na minha cabeça, neste momento, usar maquiagem não é privilégio (no sentido de que os homens “não podem”), nem liberdade. É obrigação. É a mesma coisa que dizer que eu teria a “opção” de usar uniforme na escola.

Sim, eu percebo que as exigências sociais podem ser encaradas como um jogo. E eu, classe média, funcionária pública, branca, heterossexual, magra, cabelo liso, tenho todos os trunfos na mão e todas as condições de jogar pra ganhar. Só que, embora o jogo seja bom para mim, não é bom pra todo mundo.

E, ao fim e ao cabo, não vai ser bom pra mim também. E quando eu envelhecer um pouquinho? Vou ficar na neura da juventude e me submeter a intervenções cirúrgicas para manter o corpinho? Como é que eu vou amadurecer com graciosidade quando durante anos gastei tempo e dinheiro para ser um deleite para os olhos e minha auto-estima está tão ligada à minha aparência? E o meu cabelo, que está caindo que é um horror? Se eu ficar careca, vou querer me suicidar ?

Eu se eu entrar na política? Ao invés de debater minhas idéias políticas, vou ter que agüentar colunistas políticos criticando meu guarda-roupa e a revista Cláudia perguntando se eu perdi peso e como?

E seu tiver filhas? Vou precisar dizer a elas que não, elas não podem ter a mesma liberdade sexual de seus irmãos, porque elas vão ser chamadas de putas e eles de garanhões?

(E olha que essas são questões exclusivamente pessoais. Tem outras generalizadas muito mais importantes, mas aqui estou falando só por mim.)

Atenção: não estou dizendo que quem usa maquiagem é a favor de todas essas coisas e/ou as perpetua. Estou dizendo que, para mim, neste momento, minha maneira de lutar é abandonando a maquiagem/secador/esmalte. Acho que o Daniel pegou o espírito da coisa: é um símbolo.

Com certeza existem muitas outras maneiras de lutar. Uma delas é escrever esse blogue. Por isso os comentários são importantes. Faz com que a gente troque idéias. Sim, posso ser convencida que a minha tática é inócua. Também posso convencer alguém que não é. E posso descobrir formas mais eficientes de mudar o mundo.

Alguém tem alguma idéia?

20.10.09

O Caso da Cara Limpa

Para minha grata surpresa, percebi hoje que tem 50 dias que não uso maquiagem/secador/esmalte.

Não usei nada fazendo curso de trabalho, visitando amigas, passeando no shopping, indo a festas de família. Tudo na maior tranqüilidade, se desconsiderarmos os comentários da minha mãe. Mas confesso que disfarcei as olheiras e passei batom duas vezes nesses 50 dias: tirando uma foto para o passaporte e outra para o Rotary. Vaidade, admito, mas bem controlada. Na Polícia Federal, dei ok para a primeira foto digital. No Rotary, fui clicada sem frescura. E ainda falei risonhamente para as outras moças, que se afligiam com a falta de espelho: “gente, não é concurso de miss, é intercâmbio profissional...!”

Quando comecei, tratava-se de um experimento modesto, e eu achava que ia sofrer um pouco. Pois deu tão certo que adotei por tempo indefinido. Não doeu nada, e só me diverti. Deixei de me preocupar com o estado do corretivo, do batom, do penteado. Não fico matutando antes de emitir minha opinião ou aceitar um convite. Durmo com o cabelo molhado. Não me aborreço quando a unha lasca (porque agora elas não lascam, elas são curtas!).

É verdade que eu estou tendo um pouco de conflito com o fato de que uma grande amiga ter me chamado para ser madrinha de casamento. Foi antes do meu experimento; ela mudou de cidade e não acompanhou minhas novas escolhas. Não ia entender lhufas se eu aparecesse no altar de cara lavada e calça comprida. Provavelmente ia achar que era pouco caso.

Então, em nome da nossa amizade e das expectativas sociais, vou usar o vestido longo e decotado que eu já tinha adquirido para a ocasião. Mas não vou fazer as unhas e não vou ao salão arrumar o cabelo. Quanto à maquiagem, estou seriamente inclinada ao estilo zumbi: olho roxo e boca nude.

Já que tenho de ser enfeite, serei um enfeite "user-unfriendly".

19.10.09

O Caso das Dinâmicas de Grupo

Eu e as dinâmicas de grupo nunca nos demos bem. Entrevista, apresentação, teatrinho, desafio, tudo isso eu encarava – mas dinâmica... Acho que é porque nelas eu não dava conta de disfarçar que sou mandona, teimosa e odeio trabalhar em grupo.

A verdade é que, até o intercâmbio para a Austrália, nunca consegui nada que dependesse de uma delas. Não, minto – na seleção de trainee da Vale do Rio Doce eu passei pela dinâmica de grupo e fiquei na redação de português e inglês (Como assim? Se tem alguma coisa que eu sei fazer nessa vida é redação em português e inglês. Estou convencida que minha caligrafia entregou que sou mandona, teimosa e odeio trabalhar em grupo).

Sim, pode ser que desde a última vez que fiz uma dinâmica de grupo (lá se vão cinco anos), eu tenha ficado menos mandona, teimosa e resistente a trabalhar em grupo. Mas tenho certeza de que o que garantiu minha aprovação foi uma commodity valiosíssima: noção.

Numa dinâmica de grupo para um intercâmbio profissional no qual você vai representar o Brasil em um país estrangeiro, você não deve dizer:

- que seu objetivo é melhorar o inglês;

- que você é tímido;

- que a sua maior qualidade é gostar de praticar esportes;

- que você dirigiu alcoolizado.

Vão por mim.

15.10.09

O Caso do Gene da Babaquice

Ando desenvolvendo a teoria de que todos nós, ou quase todos, temos em nosso DNA o gene da babaquice. Ele só espera uma oportunidade para se manifestar.

É a pessoa passar em um concurso melhorzinho, conseguir uma promoção ou arrumar um estagiário – ou seja, dispor de uma partícula de poder – que começa a se achar superior aos outros. E aí passa a batalhar por direitos que devem ser só seus e a atrapalhar os direitos dos outros. Sim, porque sua suposta superioridade tem de se traduzir em vantagens e benesses. E só se sustenta diante da suposta inferioridade alheia.

Eu descobri que tinha o gene da babaquice quando entrou gente nova de um cargo diferente, de salário menor, em minha seção. Imediatamente me dispus a mandar neles (e passar para eles os serviços que eu não queria fazer). Meio segundo depois percebi que era a babaquice aflorando. E segurei a onda, na hora. Vergonha própria.

Não é interessante que eu, que de vez em quando sou vítima da babaquice alheia, tenha tido como primeiro reflexo a reprodução da opressão sobre os mais desprotegidos? O gene taí, gente. Pelo menos me redimi prontamente: reconheci o ato falho e passei a defender os novatos da seção.

Aí me dei conta de como a opressão se multiplica. O chefe oprime o empregado, que que vai pra casa e oprime os filhos, que por sua vez oprimem os coleguinhas mais frágeis (não é regra; só tendência). É inconsciente: se somos inferiorizados em um lugar, no outro queremos nos sentir superiores. E lá nos vamos alegremente, reproduzindo aqui as táticas de dominação que aprendemos acolá.

Nessa hora entra a reflexão, né? Para reconhecer que o gene da babaquice existe e reprimi-lo. Sem dó nem piedade.

14.10.09

O Caso da Moda e da Maquiagem Como é que Ficam

Eu sei, eu fico voltando a este tema. Porque ele é caro ao meu coração. Porque eu adoro moda. E adoro maquiagem. Então, abrir mão delas não está sendo um detalhezinho à toa para mim.

Além disso, eu hesito em desqualificá-las. Porque elas pertencem, de maneira predominante, ao reino feminino. E a sociedade tende a desprezar (e dizer que é fútil) tudo que pertence a esse reino: “roupa, batom, novela, romance. Tudo bobagem. Coisa de mulher.” Importante sendo, claro, futebol, carro e cerveja. (Sim, eu sei que mulher dirige carro, toma cerveja e muitas gostam de futebol. Mas estou falando de estereótipos.)

Acho que o problema é que, no presente momento, moda e maquiagem servem de instrumento para a objetificação feminina. Praticamente todo estilista (independente do sexo) diz que seu objetivo é tornar a mulher sexy. Que cansaço, isso de ser sexy sempre. Que obrigação pesada, e nada adequada. Por que diabos eu tenho que ser sexy no trabalho? No cinema? Na rua? No supermercado? (Obs: isso não quer dizer que quem queira ser sexy em todos esses ambientes não possa ou não deva fazê-lo.)

Quando eu parei de usar maquiagem, percebi como minhas roupas são sexy. (E olha que eu me visto bem dentro do padrão. Não sou aquela moça que chega em um ambiente e chama todas as atenções, nada disso. Até acho que sou um pouquinho mais conservadora do que as minhas amigas.) Eu nunca tinha reparado nisso. Porque é a norma, né? Roupa de mulher é sexy. Podem observar. Eu tenho várias calças justas, muitas blusinhas colantes, roupas que mostram o corpo (saias, tops de alcinha, decotes), diversos sapatos de salto e algumas sandálias (também de salto).

Já o guarda-roupa do Maridinho se compõe de um monte de calças jeans retas, um monte de camisetas padrão, bermudas largas, alguns tênis e uns sapatos masculinos. Ele engorda um pouco, emagrece um pouco, e ninguém se dá conta. Ele usa a mesma camiseta dois dias seguidos e ninguém repara.

O meu guarda-roupa exige que eu esteja em forma. Depilada. Com as unhas dos pés feitas. Com a pele hidratada e preferencialmente bronzeada de maneira uniforme.

Roubada, né? E eu não tinha me dado conta disso, gente! 33 anos nas costas e achando natural que eu gastasse vinte minutos para me aprontar enquanto o Maridinho precisava de 5. Ou 2.

A relação que ele tem com as roupas é clara e descomplicada. Elas servem para proteger, aquecer e tá bão. Ele não usa sapatos desconfortáveis ou trajes que deixam você respirar apenas com a parte superior dos pulmões. Ele nunca hesita em emendar um programa no outro porque não está vestido adequadamente.

Então meu ícone de moda deixou de ser a Kate Moss e passou a ser o Maridinho.

12.10.09

O Caso das Penélopes

Então tem gente que acha que o ideal de mulher é isso?

Não, obrigada. Eu passo. Ter todas as virtudes e ainda a obrigação de ser linda? É demais para mim.

E ainda há quem se pergunte por que as mulheres são mais infelizes do que os homens. Não tá na cara?