30.9.09

O Caso do Intercâmbio na Austrália

No sábado fui a BH fazer a seleção para participar de um intercâmbio profissional na Austrália promovido pelo Rotary.

Conheci pessoas legais, gastei o inglês, e ainda teve lanchezinho com pães-de-queijos deliciosos. Adorei.

Aí fiquei arrancando os poucos cabelos que me restam esperando o resultado.

Tinha horas em que eu ficava otimista, achando que tinha ido bem. Tinha outras em que eu ficava pessimista, achando que a concorrência tinha ido melhor. Mas a consciência estava tranqüila, porque eu tinha me preparado o melhor que podia: antes da seleção, pesquisei sobre o Rotary, sobre o intercâmbio profissional, sobre a Austrália. A irmã I., que é a master trainee lá de casa, deu dicas de dinâmica de grupo. A irmã D., que é a maior fã de intercâmbios, incentivou entusiasticamente.

Confesso que quando cheguei à seleção, firme no meu propósito de não usar maquiagem/roupas justas e enfeitadas, e dei de cara com um concorrente de terno, pensei por um breve instante que talvez a minha estratégia não tivesse sido a melhor. Mas logo reafirmei minha decisão: não era concurso de miss, oras. Eu não estava lá para deleitar o olhar dos julgadores (e julgadoras), ou impressionar os concorrentes com meu fashion sense. Estava lá para mostrar que era dinâmica, comunicativa e sabia falar inglês.

E foi o que eu fiz: o resultado saiu hoje. Aprovada!

(Feliz da vida.)

O Caso do Remedinho

Faz mais de um ano que eu andava tendo uns medos exagerados: ficava tensa na viagem para BH, me agarrando na porta do carro a cada curva; ruídos súbitos e altos me faziam dar pulos; e eu acordava de noite, assustadíssima com um barulho não-identificado, até perceber que era o Leo respirando.

Sim, eu sabia que alguma coisa não andava indo bem. E sabia perfeitamente que o medo era infundado (o que é altamente frustrante para uma pessoa que sempre se julgou racional).

Fui a um psiquiatra do plano de saúde. Ele prescreveu um ansiolítico antidepressivo e um remédio homeopático. Tomei só o homeopático (que eu achei que mal não fazia) e nunca mais voltei. Que absurdo, ansiolítico antidepressivo. Vê lá se eu, jovem, bem-casada, feliz, com um bom emprego e nenhuma dificuldade aparente, ia mexer com remédio controlado. Pois bem, nada mudou.

Aí fui a um psicólogo ótimo. Passamos dois meses produtivos juntos, saímos os dois de férias, e nunca mais voltei.

Os medos continuaram aumentando alegremente. Sim, eu tive medo andando à noite na rua. Eu não estava sozinha, estava com o Maridinho. Na Suíça.

Tem horas que a realidade fala mais alto do que a esperança de que o problema se resolva sozinho. Arrumei outro psiquiatra (competentíssimo. E caríssimo) e, quando ele me receitou o mesmo ansiolítico antidepressivo do outro, não tive dúvidas: comprei e tomei. Com dor no coração, porque é um remédio caro pra burro. Mas achei melhor sentir dor no bolso do que na alma.

No começo, o remédio só deu sono, acessos de bocejo e falta de apetite. Depois de umas semanas, os medos, gradativamente, começaram a diminuir. E os efeitos colaterais foram embora.

Eu me considerava uma pessoa feliz. Fiquei mais. E mais tranqüila. Mais segura. Menos preocupada com a opinião alheia. Gostando mais das pessoas. E aí, claro, virei feminista.

Brincadeiras à parte (porque eu já era feminista), o tratamento fez bem para mim. Os medos não sumiram totalmente, mas quase. E eu não ia falar nada aqui, mas depois fiquei pensando: o que é que tem? Quando o meu cabelo caía, eu contava dos comprimidos de ferritina sabor chocolate. E sobre a minha absorção de serotonina desregulada (acho que é isso), eu não falo nada? Problema de saúde é problema de saúde, poxa.

PS: não estou fazendo apologia ao uso de medicamentos. A mim, neste momento, ajudou, só isso. O psiquiatra também recomendou que eu voltasse à terapia. Terapia sempre é bom.

PSII: nessas horas eu percebo como o dinheiro faz diferença na vida da gente. Acho que dá para viver com pouco e ser feliz, mas quando a pessoa não tem grana para comprar remédio, aí a coisa pode ficar feia.

29.9.09

O Caso da Champã

Como presente de formatura, o Maridinho ganhou de mim uma garrafa de Veuve Clicquot, trazida pela irmã I. de sua última viagem e alegremente consumida entre amigos.

Foi um erro. Porque agora ele torce o nariz para a Mumm argentina, que custa um quarto do preço. E já declarou que não toma mais espumante, só champanhe de verdade.

O Maridinho é uma pessoa simples; eu é que sempre fui a esnobe horrível.

Aparentemente o esnobismo horrível é contagioso.


28.9.09

O Caso dos Comentários Maternos

Nesse fim-de-semana tive o primeiro comentário negativo a respeito do meu experimento social (isto é, a recusa em ser enfeite). O mais engraçado é que ele veio de minha mãe, aquela criatura sem vaidade da minha adolescência.

No meio de uma conversa, eu disse que não andava ligando muito para a aparência e ela retrucou: “É, eu percebi mesmo... você anda muito desleixada. Usando umas calças largas, velhas.”

Eu ri, né? Porque eu acho que estou longe de ser desleixada. Eu continuo tomando banho, penteando o cabelo, cortando as unhas. As calças “largas, velhas” são calças sociais que não são grudadas no corpo.

Respondi que, de fato, eu costumava ser mais vaidosa. E ela me lascou: “É verdade, você era até exageradamente vaidosa.”

(Sim, minha mãe nunca está satisfeita com a minha aparência, nem com a aparência das minhas irmãs. Mas esse é outro assunto.)

Expliquei a ela que meu novo visual era uma declaração política. Ao que ela me respondeu: “Ah, mas radicalizar não é uma boa” e “Um pouco de vaidade é importante”.

É claro que perguntei por que radicalizar não era uma boa e por que um pouco de vaidade era importante. E é claro que ela enrolou e não conseguiu responder, porque são típicas frases feitas que todo mundo repete mas que não necessariamente se sustentam.

O mais engraçado é que não virei, de repente, uma pessoa totalmente desprovida de vaidade. Meu corpo continua depilado. Minhas roupas continuam combinando. Meus sapatos continuam engraxados. Eu só estou evitando as roupas justas e enfeitadas e a maquiagem.

Ou seja, eu ainda me visto melhor que o Leo (desculpa aí, Maridinho). Mas o Leo ninguém acusa de desleixo.

24.9.09

O Caso do Fim do Ciclo Universitário

Aqui é o Leo postando. A Esposinha já ameaçou várias vezes mudar o nome do blogue para LudLud ou Lud. Só porque eu nunca escrevo? Imagina. Em quase 6 anos devo ter feito uns 4 post já. E para manter a média, vamos ao quinto:

Finalmente colei grau e terminei minha saga de faculdade. Depois de dois anos e meio (novo recorde onde estudei, aqui no Vale do Aço), me formei no curso de Computação - Sistemas de
Informação.

O mais legal é que não sei o que sou. Se tivesse terminado o curso de Ciências Econômicas na UFMG, que comecei em 1993 e larguei no meio, eu seria economista ou, mais chique ainda, cientista econômico. Agora, quem se forma em Computação - Sistemas de Informação (adoro o traço no meio do nome do curso) é o quê?

Passei boa parte dos 2 anos e meio tentando descobrir. E para minha tristeza termino o curso sem saber, porque nenhum professor conseguiu me dizer. O mesmo vale para o coordenador de curso. Tô achando que serei igual ao Chandler do seriado Friends: o amigo do qual ninguém sabe profissão. Será que sou um transponster?

Agora é seguir em frente. Nova etapa, estudos para concursos públicos. E para não faltar feminismo neste post, quer marido mais feminista que eu? Sou dono-de-casa. Dondoco.

E, cá entre nós, adoro esta profissão!!!
Fonte da figura: este site aqui.

23.9.09

O Caso do Teste: Você é Feminista?

Percebo que muitas pessoas hesitam em se intitularem feministas. E alguns parecem francamente ofendidas quando pergunto se se consideram como tal.

Para resolver a questão de uma vez por todas, aí vai um teste revelador: você é feminista?

1. Você acha que (A) uma mulher deve receber o mesmo salário de um homem para realizar o mesmo trabalho ou (B) uma mulher deve receber um salário superior ao de um homem para realizar o mesmo trabalho?

2. Você acha que (A) as atividades domésticas devem ser de responsabilidade de todos os moradores da casa ou (B) as mulheres não devem ser responsáveis pelas tarefas domésticas?

3. Você acha que (A) que homens e mulheres devem receber a mesma educação escolar ou (B) somente as mulheres devem ser admitidas nas faculdades?

4. Você acha que (A) homens e mulheres devem ter direito a votarem e a serem votados ou (B) somente as mulheres devem ter direito a votarem e a serem votadas?

5. Você acha que (A) homens e mulheres devem ter autonomia para possuir bens e administrá-los ou (B) somente as mulheres devem possuir bens e administrá-los?

Resultado do teste:

Se você marcou mais letras (A), surpresa – você é feminista! É isso mesmo: o feminismo defende que todo mundo deve ter direitos e obrigações iguais, independentemente do gênero. É por isso que feminismo e machismo não são opostos: o feminismo quer que tanto mulheres quanto homens tenham acesso às mesmas oportunidades; já o machismo acredita que os homens são superiores e, por causa disso, devem ter direito a vários privilégios. O real oposto do machismo é o femismo, que segue a mesma "lógica" ("sou melhor porque tenho o cromossomo X ou Y") e está representado pelas letras (B) no teste.

Você se chocou com as letras (B)? Pois é, que horror. Que injustiça. Mas perceba que, se você trocar a palavra “mulher(es)” por “homem(ns)” nos itens 1 e 2, eles vão refletir a realidade atual de muitas mulheres. E se você fizer a mesma coisa nos itens 3, 4 e 5, bem, eles correspondiam à verdade não faz muito tempo (e ainda correspondem em certos países). O que aconteceu desde então? O feminismo.

Então, meninas e meninos, não façam cara feia quando perguntarem se vocês são feministas. Feminismo não é palavrão. É elogio. É liberdade. É contestação. É questionamento de modelos prontos. É bom para todo mundo.

Ah, gente, confessem: vocês já eram feministas e nem sabiam.

Nota importante: baseei meu teste neste aqui.

"Feminismo é a noção radical de que as mulheres são pessoas"

22.9.09

O Caso da Dúvida: Por que as Mulheres se Arrumam?

A minha amiga Chris deixou nos comentários a seguinte indagação: “dizem que, na verdade, as mulheres se vestem bem, usam maquiagem e tudo mais pras outras mulheres, e não para os homens... será?”

Bem, eu posso falar da minha experiência. O Maridíssimo não é ligado em roupas (nem nas dele) ou em maquiagem. Quando eu boto uma roupa que faz muito tempo que não uso, ele pergunta se é nova. Ele só percebia que eu me pintava quando eu usava um monte de sombra nos olhos. E às vezes eu usava alguma coisa superfashion e ele olhava meio desconfiado.

Ele e os amigos dele são assim. Eles só notam se a moça “tá bunita”. E a definição de beleza deles passa bem longe dos editoriais das revistas de moda. Boca nude e esmalte roxo não fazem o menor sucesso. Roupa de marca eles nem registram.

Então parece que, de fato, as mulheres não se arrumam para os homens (e eu nem acho que deveriam, tá?). Mas, por outro lado, conheço alguns homens acham, sim, que tem alguma coisa errada com as mulheres que não “se cuidam”. Talvez eles não saibam direitinho o que o “se cuidar” envolva, mas conseguem apontar que a Marina Silva é uma delas. (De novo a Marina Silva! É porque ela é a única mulher pública que eu consigo lembrar que se apresenta de cara limpa (tão bonito isso, para um político). E confesso que já passou pela minha cabeça que um corretivozinho lhe cairia bem. Mas isso foi antes de ler “O Mito da Beleza” da Naomi Wolf, e entender que a Marina Silva não é modelo/manequim, mas política, e portanto a aparência dela não vem ao caso (porque nas olheiras do José Serra ninguém quer passar corretivo, né?)).

Ao fim e ao cabo, o certo é que a sociedade exige das mulheres uma certa aparência. E a punição da sociedade para quem não cumpre suas exigências é a crítica, o ridículo e até o ostracismo.
Nós, mulheres, estamos inseridas na sociedade. Então, é meio automático que a gente repita seus mandamentos. O que acaba sendo um tiro no pé, porque quando eu critico a aparência de uma mulher, estou mantendo vivo e forte o sistema e reforçando que é “natural” que eu também seja avaliada pelo meu visual.

O que a gente faz para mudar isso? Bem, eu estou tentando vivamente não falar da aparência das pessoas (e principalmente das mulheres). Simplesmente não comento. Nem para elogiar. Porque acho que só cabe esse julgamento se estamos falando de atores/modelos, profissões ligadas à aparência. Ou talvez só modelos, porque eu gostaria muito que a profissão de ator não fosse ligada à aparência. Embora eu saiba que seja, principalmente se você é atriz.

E também tento convencer gentilmente as pessoas desse ponto-de-vista. (É, porque eu achava que uma discussão era uma oportunidade para esmagar os outros com meus argumentos vociferantes. Há pouco tempo descobri que uma discussão serve para é para trocar idéias – e se eu escutar atentamente as alheias, é mais provável que os outros também escutem atentamente as minhas). Confesso que não é fácil mudar uma visão que está tão inserida nas pessoas que elas não percebem que é só uma visão, não uma verdade definitiva. Mas acho que o simples fato de abrir o questionamento já é um passo importante.

21.9.09

O Caso do Menino ou da Menina

Parece que na França é muito comum o casal, durante a gestação, não querer saber o sexo do bebê. Fiquei pensando sobre o assunto e concluí que é uma ótima idéia. Sem saber se é menino ou menina, a mãe e o pai (e os familiares) vão pensar no baby como uma pessoa. Não vão ficar desenvolvendo expectativas do tipo “vai gostar de esporte” (se for garoto), ou “vai gostar de cozinhar” (se for garota). Porque não tem nada nos genes que determine essas preferências, né? É pura construção social.

Outra vantagem: o feto não ganha roupinhas e brinquedinhos “de gênero”. Ou seja, nada de vestidinhos cor-de-rosa. Ou de uniformezinho do exército. Que são danados, né? Porque os estereótipos estão também no nosso inconsciente. Por mais que eu tente ser crítica, tenho certeza que vou (e todo mundo também vai) esperar que uma criança vestida de princesa seja muito mais frágil e mais bem-educada do que se ela estiver usando camuflagem. Já o bebê fantasiado de Rambo vai poder gritar e chutar e correr e todo mundo vai achar lindo.

Então acho que, se eu decidir ter filho(s), não vou querer saber o sexo do bebê até nascer. E enquanto isso vou chamando nem de menino e nem de menina, mas de menine.

Vejam acima atraente menine mostrando a língua para os estereótipos de gênero.

17.9.09

O Caso do Discurso Pró-Vida da Nova Novela das 8

Obs: já vi que "Viver a Vida" vai render assunto para inúmeras postagens.

Hoje minha mãe veio me visitar e, já que ela vê novela, fiz companhia. Atuações constrangedoras? Check. Mulheres chatas e fúteis? Check. Velhusco conquistador metido? Check.

Aí ficamos sabendo que a Sandrinha, irmã mais nova da Helena (acho que a personagens tem uns 18 anos) , está grávida. A mãe das duas, a Edith, fica escandalizada (ANTES de saber que o namorado usa drogas e bate nela). E a Helena afirma para a mãe que a Sandrinha TEM de ficar em Búzios até o filho nascer. Porque se a Sandrinha voltar no Rio "ela vai acabar achando um açougueiro que faça um aborto. Ela vai se matar e vai me matar também".

Bem, gente, Sandrinha é classe média. Classe média arranja clínica arrumadinha para fazer aborto (que nos primeiros meses da gravidez é um procedimento simples - cirurgicamente falando). Ou seja, não tem açougueiro na história. E o risco de morte (se feito adequadamente) é muito baixo (acredito que até menor do que o do parto).

Sandrinha é jovem, revoltada e NÃO quer ter o filho. Eu não estou entendendo porque a Helena se arvorou em dona da verdade e da irmã. A mensagem da cena é clara, né? Aborto é uma aberração (que só uma doida como a Sandrinha, que além do mais apanha do namorado drogado, cogita fazer). Se apesar disso se você decidir por ele, primeiro você vai sofrer e depois você morre.

As coisas não são beeem assim, não. Não estou dizendo que abortar é simples como ir ao cinema; que não pode deixar seqüelas emocionais; que é uma decisão fácil. Mas também acho que a escolha é da mulher grávida. É o corpo dela que vai mudar e é ela que vai ser a principal responsável pela criança (salvo exceções). E me irrita profundamente que quem decida sobre a legalidade do assunto seja um monte de congressistas homens, velhos e carolas.

Achei a cena bem movimento Pró-Vida (contrário ao aborto exceto em alguns casos, e às vezes nem nesses). Que, ao contrário do que muita gente pensa, não é uma oposição simétrica ao Pró-Escolha (a favor da liberdade reprodutiva). Porque o Pró-Vida decide pela mulher: não pode abortar e pronto. O Pró-Escolha acha que a mulher deve decidir por si mesmo: abortar ou não. Ou seja, o Pró-Escolha abriga as duas possibilidades. O Pró-Vida só admite uma.

Você pode muito bem estar certa de que nunca interromperia uma gravidez e ao mesmo tempo ser Pró-Escolha. Porque o Pró-Escolha não obriga ninguém a abortar. Ele só defende que o direito de decidir é seu, não dos congressistas homens velhos carolas.



Eu sou Pró-Escolha mermo.

O Caso da Cara Limpa

Então eu deixei de usar maquiagem, né? Porque eu não sou enfeite. Nem palhaço.
E não é que eu não goste de maquiagem. Eu adoro. É uma escolha, mesmo.
Eu sei que pode ser difícil para as leitoras (e leitores!) entenderem essa idéia, porque afinal aparentemente a beleza feminina só traz vantagens, né? E porque que a boba aqui vai abrir mão dessa vantagens?
Tem vários de motivos, e talvez eu não consiga expressá-los tão bem quanto gostaria, mas vou tentando.
Primeira idéia: mulheres e homens são diferentes biologicamente, mas isso não justifica uma hierarquia entre eles.
E, na nossa sociedade, existe uma hierarquia. Mulher é cidadão de segunda classe. Se não fosse, ela não seria 51% da população mas estaria presente nos cargos políticos e de chefia numa porcentagem muitíssimo menor, né? Ou ganharia um salário menor pelo mesmo emprego. Ou sofreria violência doméstica. Ou seria 70% dos pobres do mundo (o dado é da ONU). Etc etc.
Segunda idéia: muitas das diferenças entre mulheres e homem (geralmente aquelas que são usadas para justificar a dominação masculina), são construções sociais, não conseqüência da biologia.
Ando conversando com muita gente a respeito de criação de filhos, e as mesmas pessoas que insistem que meninos e meninos são diferentes, sim, por causa dos hormônios! são os que ficam mais chocados com a idéia de botar um vestido de princesa rosa no menino. Ué, se a masculinidade está nos genes dele, não é um vestidinho bobo que vai confundir o garoto, não é?
Terceira idéia: aos cidadãos de primeira classe (que por acaso são os homens, mas que podiam ser também as murtas azuis calpurnianas) não se exige uma aparência que deleite os olhos (como se demanda das mulheres). Ninguém chama o Lula ou o Clinton de feios, porque a beleza simplesmente não está em questão. Mas tem colunista criticando a Marina Silva por “não se cuidar”.
Então eu, que antes de ser mulher sou pessoa, não quero mais gastar dinheiro, tempo e preocupação em coisas que não são exigidas dos cidadãos de primeira classe (que por acaso são os homens, mas que podiam ser também as murtas azuis calpurnianas).
Também estou revendo meu guarda-roupa (e foi uma coisa natural, não premeditada). Estou preferindo roupas mais unissex. E, adivinha? Elas são mais fáceis de usar e combinar.
Isso não quer dizer que estou negando minha qualidade de mulher. A não ser, claro, que se considere que ser mulher é usar batom, esmalte, secador e saia. E não é, né?
Também não estou dizendo que homem e mulheres são inimigos. Ou que ninguém deve usar maquiagem. Ou que essa é a solução para todos os problemas femininos.
Só sei que para mim, neste momento, ao perceber que vivo numa sociedade que trata as mulheres como enfeites (quem nunca recebeu um cartão de Dia das Mulheres nos agradecendo por embelezar o mundo?) ou palhaças (salário menor pelo mesmo serviço), não faz o menor sentido sair por aí com o rosto pintado.
Porque eu não sou enfeite. Nem palhaça.

15.9.09

O Caso da Nova Novela das 8

Faz anos que eu não vejo novela, mas como a que estreiou ontem na Globo tinha a primeira protagonista negra no “horário nobre”, achei que valia a pena dar uma espiada.
Rolaram umas convulsões de ódio na frente da tevê. Senão, vejamos:
* a fofa da Taís Araújo aparece de cabelos crespos, naturais e lindos no começo do episódio, mas na hora do desfile de moda a cabeleira fica lisa escorrida. E a irmã dela está a cara da Riahanna – isto é, cabelinho liso, liso. Pelo menos a mãe das duas, que consegue ser ainda mais bonita que a Taís, varia.
É superlegal ter uma família negra em destaque na novela das 8, mas se for pra lascar nela a estética do homem branco não adianta muito, né?
* o galã da novela é o José Mayer, canastrão como sempre. Da boca dele saem estas pérolas: “Eu não consigo viver sem uma mulher fixa. Eu gosto dos pés se encontrando no meio da noite, de escutar as bobagens dela no café-da-manhã, de ouvir as fofocas que ela traz do salão de beleza”.Um momento que eu vou ali vomitar.
* eu não sei de onde tirei a idéia de que o escritor da novela, o Manoel Carlos, gosta das mulheres. Quase todas que apareceram no primeiro capítulo são todas bonitas, arrumadas, ricas, fúteis e chatas.
* a única personagem que me agradou foi a ex-esposa do José Mayer, a Lília Cabral. Ela é bonita, arrumada, rica, fútil e chata. Mas como a atriz é ótima, simpatizei com ela. Até porque me parece que a idéia era usá-la de contraponto ao José Mayer (tipo ela é esposa insuportável, ele é o marido sacrificado). E ele é um chatão.
* o José Mayer tem 59 anos. A Taís Araújo tem 30. Nada contra a diferença de idade, mas porque na maioria absoluta dos casos o homem é velhusco e a moça é que é novinha?
Aí começou um filme e eu mudei de canal.

14.9.09

O Caso do Experimento Social: Parte 4 e Final

Afinal, o ideal é que a gente ignore as aparências, ou que não as ignore, mas as aceite como são?

Andei pensando (e posso mudar de idéia). Minha conclusão no momento é a primeira opção é a melhor – mas é também meio impossível. Então o jeito é não dar muita importância, e também não ficar fazendo julgamentos apressados, baseados somente na cara (e no corpo) das pessoas. Só porque alguém é diferente de mim não significa que ela seja boba/feia/chata. E aí nessa de não julgar pelas aparências um monte de preconceitos vai embora, né?

O que estou levando do meu modesto experimento social?

Vou continuar dispensando os “cuidados de beleza”. Deu pra ver que, com a mesma rotina que meu marido tem (banho – desodorante – corte de cabelo e unha – lâmina para os pelos – perfume de vez em quando) eu fico perfeitamente apresentável. E feliz da vida.

Além disso, prometo solenemente:

1) rir da cara das propagandas de produtos de beleza, sabendo que elas são essencialmente mentirosas. E não gastar meu rico dinheirinho com eles.

2) ler revistas femininas com muita reserva (vide post futuro).

3) evitar comentários sobre a aparência das pessoas, tanto negativos quanto positivos. A mensagem? Seu visual não é mais importante que você.

E agora, o mais importante: a base teórica do experimento.

Escrevalolaescreva, da Lola Aronovich:
http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2008/06/beleza-no-um-por-todos-todos-por-um.html

O Mito da Beleza, da Naomi Wolf:
http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2007/01/370736.shtml
Direitos autorais: o livro está esgotado no Brasil. Assim que for lançada uma nova edição (o que é pouco provável), tiro o link do blogue.

11.9.09

O Caso do Experimento Social: Parte 3

Resultados imediatos: passei a ir para o trabalho mais cedo e a abraçar as pessoas sem me preocupar se uma parte da maquiagem ia ficar nelas. Também abandonei o hábito de checar o estado das olheiras. E passei a me olhar no espelho com olhos menos críticos – afinal, sem maquiagem, eu sabia que não ia estar perfeita mesmo.

Resultados após alguns dias: como eu estava sendo menos exigente comigo mesma, estendi a cortesia às pessoas em geral. Elas ficaram mais interessantes, já que, suspenso o julgamento em relação ao visual, dava para prestar atenção no que elas diziam e faziam.

Reações até agora: não houve. Nenhuma. NENHUMA. As pessoas me tratam exatamente da mesma maneira. Ninguém apontou o dedo e disse: hahaha, olha as olheiras dela. Ou hehehe, que cabelo ridículo ela tem. Ou hihihi, seus poros são gigantes. O que me leva a concluir que meu visual não fica assim tão “agradável” quando “me cuido”, nem tão “desagradável” quando não ligo a mínima.

Resposta à questão nº 1) será que, sem maquiagem/cremes/secador, eu vou ficar feia mesmo?

Olha, ninguém gritou que eu tinha virado um monstro. Talvez alguma amiga tenha notado a palidez, mas não falou nada. O Maridinho sequer percebe se eu estou maquiada ou não. Só a irmã I. comentou que eu estava um pouco abatida (mas eu estava usando uma blusa cor-de-burro-quando-foge, então a mostra foi contaminada).

Ou seja: as propagandas (surpresa!) mentem. Eu não vou ficar linda como as modelos que aparecem anunciando produtos de beleza (até porque nem elas são lindas assim, mas aí já é outro assunto). E também não vou ficar feia como o Shrek se não usar cosméticos (apesar de que o Shrek não é assim tão medonho... eu não disse que estou olhando com mais carinho para as pessoas?).

Resposta à questão nº 2) e se eu ficar feia?

Como eu disse, sempre fui muito preocupada com a aparência. Nessa experiência, percebi que eu e a mídia nos preocupamos muito mais com a minha aparência do que as pessoas que me cercam se preocupam com a minha aparência.

As pessoas que me cercam querem que eu seja competente no trabalho, confiável nas amizades, atenciosa no casamento. Nenhuma delas exige que eu tenha a pele de porcelana e olhos de gazela. Para elas, eu sou muito mais do que a minha aparência.

Assim sendo, passei a ligar muito menos para o visual, meu e dos outros. E isso é libertador.

Ao mesmo tempo, minha definição do que é belo foi alargada enormemente. Descobri que não preciso de que os meios de comunicação, com seus padrões de beleza horrivelmente restritivos, me contem o que é bonito ou não. Eu chego às minhas próprias conclusões, obrigada.

Contraditório, né? Está tudo meio bagunçado em minha cabeça ainda. O ideal é que a gente ignore as aparências, ou que não as ignore, mas as aceite como são?

Continua...

9.9.09

O Caso do Experimento Social: Parte 2

Tem mais: não é qualquer tipo de beleza feminina que vale, não. Você só vai ser bonita se for magra (de preferência malhada), de cabelo liso (de preferência louro), e jovem (de preferência bastante). Para completar, a publicidade fica te dizendo que esse ideal de beleza é perfeitamente atingível: é só você comprar os bens de consumo deles. Entre a indústria das dietas e a indústria dos produtos de beleza, minha amiga, você só não é a próxima Gisele se não quiser. Em outras palavras: você não é linda? Isso é um absurdo! E a culpa é sua!
Aí alguém se espanta que eu gaste dinheiro, tempo e esforço lapidando a minha aparência? Aí alguém se espanta que milhões de mulheres gastem dinheiro, tempo e esforço lapidando suas aparências? Conclusão lógica: se a sociedade não se ocupasse tanto com a aparência das mulheres, elas iam gastar dinheiro, tempo e esforço em outras coisas, talvez mais interessantes.
E aí, é claro, eu entrei em conflito. Eu quero ser uma pessoa racional e produtiva, mas eu gosto taaaanto de maquiagem! (Gosto mesmo ou sou dependente dela, já que não saio de casa com um batom e uma base em pó na bolsa?) E taaaanto de moda! (Gosto mesmo ou as revistas brilhantes e coloridas é que me convencem que eu tenho que ter uma calça jeans desbotada esburacada?) E taaanto de estar magra! (Mas será que gosto mesmo ou que não faz o menor sentindo evitar o chocolate nosso de cada dia para caber em calças dez anos atrás?)
O que aconteceria se eu (gulp) abandonasse os cuidados de beleza? Eu ficaria (the horror!) ... feia?
Imediatamente surgiram duas questões:
Questão nº 1) será que eu ficaria feia mesmo? Será que os diversificadíssimos produtos que eu esfrego, espalho e aplico em mim e as calorias que eu evito realmente me transformam em outra pessoa, várias vezes mais atraente, como insistem em dizer os meios de comunicação?
Questão nº 2) se eu ficar feia, e daí? Por que a feiúra é tão aterrorizante para mim (e acho que para muitas mulheres)? Sério, chama o Clinton ou o Lula de feio. Ou o Nelson Mandela. Ou o Stephen Hawking. Eles vão rir na sua cara. (Obs 1: não, não é coincidência que os exemplos sejam masculinos. Obs 2: não estou chamando o Clinton, o Lula, o Mandela ou o Stephen Hawking de feios. O Mandela é lindo, por sinal.)
Dito isso, abandonei um monte de produtos diários: creme clareador para tirar as manchinhas do rosto, creme para a região dos olhos, protetor solar, base em pó, corretivo, sombra, lápis de olho, rímel, blush, batom. Larguei também o secador de cabelos. Só não abri mão do brilho para a boca, porque não dei conta, até o dia 11º dia do experimento. Mas me dêem um desconto: era um brilhinho incolor.
Isso quer dizer que desde 24 de agosto, segunda-feira, eu, que faz mais de 10 anos que não saio de casa sem passar pelo menos batom, vesti uma camisa listrada e saí por aí. Com olheiras, vasinhos, manchinhas, faces pálidas e cílios curtos à mostra.
Continua...

2.9.09

O Caso do Experimento Social: Parte 1

Sempre me preocupei com a aparência. Quando eu era adolescente, não podia fazer muito a respeito, porque minha mãe não era vaidosa e só ia ao salão (e me levava) de vez em quando, e só pra cortar o cabelo. Maquiagem quase não existia lá em casa.

E, é claro, eu achava que a falta de vaidade era uma mancha no currículo da minha mãe.

Quando virei uma mulherzinha, lancei-me alegremente às roupas justas, ao corretivo e ao batom. Não saía de casa sem esconder as olheiras, que eu achava enormes (e elas realmente são). E assinava revistas femininas e via programas de moda e lia blogues de maquiagem. Não comprava muito, porque o escorpião no bolso, como diz a irmã D. , não deixava. Mas gastava, e aproveitava as viagens para adquirir produtos de beleza e roupas bacanas. E ficava feliz porque me sentia bonita e aceita e integrada à sociedade.

Aí comecei a ir a uns blogues diferentes e a ler uns textos diferentes e a me perguntar por que é que eu sentia essa obrigação de estar sempre “bonita”. E a questionar porque diabos eu já tinha feito dieta (mais de uma vez!) sendo que eu era magra. E a pensar porque raios eu não podia ir nem na esquina sem esconder as olheiras.

Olha, não tem nada intrinsecamente errado com a moda, as dietas e a maquiagem. O problema é que, para mim, elas tinham se tornado um dever. Eu só recebia amigos em casa com sombra nos olhos e sapato de saltinho. Precisava trabalhar usando base e blush. Às vezes dormia com fome. E estava considerando seriamente em gastar o preço de várias passagens para a Europa em uma bolsa Chanel.

Eu me considero uma pessoa racional. E esses comportamentos não são nada racionais.

Só que, é claro, eu não tirei a obrigação de estar “bonita” só da minha cabeça. Para quase todo lugar que a gente olha (tevê, revista, internet) tem mulher jovem, bonita e esbelta. Os apresentadores de jornal podem ter rugas e cabelos brancos, enquanto as apresentadoras são novas e belas. O Faustão é uma bolota, mas a Ana Maria Braga usa botox e silicone. O Luciano Huck tem nariz de tucano e a Angélica é loira e linda. Estão vendo a mensagem, sem precisar de muito esforço? Mulher, seja bonitona, senão você não tem espaço. Não faz sucesso. Não existe.









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Continua...

O Caso da Volta ao Blogue

Hohoho! De volta.

Os planos estão todos em suspenso, caminhando a passos de tartaruga e sem resultados discerníveis no momento.

Enquanto isso, ando lendo blogues e livros interessantíssimos e fazendo modestos experimentos sociais.

O primeiro: abandonar a maquiagem e o secador de cabelos (eu adoro e uso ambos. Sempre).

No próximo post, observações e resultados.





Abaixo a ditadura!