17.9.09

O Caso da Cara Limpa

Então eu deixei de usar maquiagem, né? Porque eu não sou enfeite. Nem palhaço.
E não é que eu não goste de maquiagem. Eu adoro. É uma escolha, mesmo.
Eu sei que pode ser difícil para as leitoras (e leitores!) entenderem essa idéia, porque afinal aparentemente a beleza feminina só traz vantagens, né? E porque que a boba aqui vai abrir mão dessa vantagens?
Tem vários de motivos, e talvez eu não consiga expressá-los tão bem quanto gostaria, mas vou tentando.
Primeira idéia: mulheres e homens são diferentes biologicamente, mas isso não justifica uma hierarquia entre eles.
E, na nossa sociedade, existe uma hierarquia. Mulher é cidadão de segunda classe. Se não fosse, ela não seria 51% da população mas estaria presente nos cargos políticos e de chefia numa porcentagem muitíssimo menor, né? Ou ganharia um salário menor pelo mesmo emprego. Ou sofreria violência doméstica. Ou seria 70% dos pobres do mundo (o dado é da ONU). Etc etc.
Segunda idéia: muitas das diferenças entre mulheres e homem (geralmente aquelas que são usadas para justificar a dominação masculina), são construções sociais, não conseqüência da biologia.
Ando conversando com muita gente a respeito de criação de filhos, e as mesmas pessoas que insistem que meninos e meninos são diferentes, sim, por causa dos hormônios! são os que ficam mais chocados com a idéia de botar um vestido de princesa rosa no menino. Ué, se a masculinidade está nos genes dele, não é um vestidinho bobo que vai confundir o garoto, não é?
Terceira idéia: aos cidadãos de primeira classe (que por acaso são os homens, mas que podiam ser também as murtas azuis calpurnianas) não se exige uma aparência que deleite os olhos (como se demanda das mulheres). Ninguém chama o Lula ou o Clinton de feios, porque a beleza simplesmente não está em questão. Mas tem colunista criticando a Marina Silva por “não se cuidar”.
Então eu, que antes de ser mulher sou pessoa, não quero mais gastar dinheiro, tempo e preocupação em coisas que não são exigidas dos cidadãos de primeira classe (que por acaso são os homens, mas que podiam ser também as murtas azuis calpurnianas).
Também estou revendo meu guarda-roupa (e foi uma coisa natural, não premeditada). Estou preferindo roupas mais unissex. E, adivinha? Elas são mais fáceis de usar e combinar.
Isso não quer dizer que estou negando minha qualidade de mulher. A não ser, claro, que se considere que ser mulher é usar batom, esmalte, secador e saia. E não é, né?
Também não estou dizendo que homem e mulheres são inimigos. Ou que ninguém deve usar maquiagem. Ou que essa é a solução para todos os problemas femininos.
Só sei que para mim, neste momento, ao perceber que vivo numa sociedade que trata as mulheres como enfeites (quem nunca recebeu um cartão de Dia das Mulheres nos agradecendo por embelezar o mundo?) ou palhaças (salário menor pelo mesmo serviço), não faz o menor sentido sair por aí com o rosto pintado.
Porque eu não sou enfeite. Nem palhaça.

3 comentários:

Delilah disse...

hoje achei uma solução ótima. incentivei um amigo a usar maquiagem. se todo mundo usar, estou liberada? =D

Setembro! disse...

Não discordo totalmente! Gostei...

Lud&Leo disse...

Delilah,
se todo mundo usar maquiagem, do mesmo jeito que todo mundo usa roupa, está liberadíssima.