17.9.09

O Caso do Discurso Pró-Vida da Nova Novela das 8

Obs: já vi que "Viver a Vida" vai render assunto para inúmeras postagens.

Hoje minha mãe veio me visitar e, já que ela vê novela, fiz companhia. Atuações constrangedoras? Check. Mulheres chatas e fúteis? Check. Velhusco conquistador metido? Check.

Aí ficamos sabendo que a Sandrinha, irmã mais nova da Helena (acho que a personagens tem uns 18 anos) , está grávida. A mãe das duas, a Edith, fica escandalizada (ANTES de saber que o namorado usa drogas e bate nela). E a Helena afirma para a mãe que a Sandrinha TEM de ficar em Búzios até o filho nascer. Porque se a Sandrinha voltar no Rio "ela vai acabar achando um açougueiro que faça um aborto. Ela vai se matar e vai me matar também".

Bem, gente, Sandrinha é classe média. Classe média arranja clínica arrumadinha para fazer aborto (que nos primeiros meses da gravidez é um procedimento simples - cirurgicamente falando). Ou seja, não tem açougueiro na história. E o risco de morte (se feito adequadamente) é muito baixo (acredito que até menor do que o do parto).

Sandrinha é jovem, revoltada e NÃO quer ter o filho. Eu não estou entendendo porque a Helena se arvorou em dona da verdade e da irmã. A mensagem da cena é clara, né? Aborto é uma aberração (que só uma doida como a Sandrinha, que além do mais apanha do namorado drogado, cogita fazer). Se apesar disso se você decidir por ele, primeiro você vai sofrer e depois você morre.

As coisas não são beeem assim, não. Não estou dizendo que abortar é simples como ir ao cinema; que não pode deixar seqüelas emocionais; que é uma decisão fácil. Mas também acho que a escolha é da mulher grávida. É o corpo dela que vai mudar e é ela que vai ser a principal responsável pela criança (salvo exceções). E me irrita profundamente que quem decida sobre a legalidade do assunto seja um monte de congressistas homens, velhos e carolas.

Achei a cena bem movimento Pró-Vida (contrário ao aborto exceto em alguns casos, e às vezes nem nesses). Que, ao contrário do que muita gente pensa, não é uma oposição simétrica ao Pró-Escolha (a favor da liberdade reprodutiva). Porque o Pró-Vida decide pela mulher: não pode abortar e pronto. O Pró-Escolha acha que a mulher deve decidir por si mesmo: abortar ou não. Ou seja, o Pró-Escolha abriga as duas possibilidades. O Pró-Vida só admite uma.

Você pode muito bem estar certa de que nunca interromperia uma gravidez e ao mesmo tempo ser Pró-Escolha. Porque o Pró-Escolha não obriga ninguém a abortar. Ele só defende que o direito de decidir é seu, não dos congressistas homens velhos carolas.



Eu sou Pró-Escolha mermo.

Um comentário:

jéssica disse...

post maravilhoso, concordo plenamente!