2.10.09

O Caso da Pílula Vermelha

Vocês se lembram do filme Matrix? Em que o Neo, interpretado pelo Keanu Reeves, escolhe tomar a pílula vermelha, vê a realidade de fato e aí não tem mais como fingir que tudo está bem?

Pois então. O feminismo é a pílula vermelha. Depois que você percebe que a sociedade é patriarcal e machista, e trata as mulheres como enfeites e reprodutoras, e isto está tão inserido na cultura e na gente que até então nem nos dávamos conta, também não tem mais como voltar atrás e fingir que está tudo bem. Situações e imagens aparentemente naturais começam a saltar aos olhos. Exemplos práticos dos últimos dias:

Vídeo de apresentação do Brasil na seleção para sediar as Olimpíadas 2016. Lindíssimas imagens do Rio, e as mulheres que aparecem estão: a) de biquíni na praia, b) fazendo compras no shopping, c) desfilando no carnaval. Tradução: mulher é enfeite e adorar comprar. Mais enfeites.

Filme de animação Igor. A história é sobre como o mais humilde (dos homens) pode superar as dificuldades. As mulheres são: a) a sedutora ajudante do vilão, que namora os cientistas rivais para roubar suas invenções, b) uma criação do Igor, intrinsecamente boazinha, a quem bastar chamar de “feia” para deixar desconsolada. Tradução: mulher é puta ou é santa. E a maior ofensa que você pode fazer a ela é dizer que ela não é bonita, isto é, enfeite.

Seriado novo, Glee. As personagens feminas são a) visualmente atraentes, b) basicamente desequilibradas. Tradução: mulher é enfeite. Enfeite irracional.

É chato notar essas coisas. É assustador perceber que, até pouco tempo atrás, eu nem notava essas coisas. É apavorante dar-se conta que a maior parte das pessoas não só não notas essas coisas como também, quando você as aponta, te olha com absoluta incompreensão.

(Imagino que era exatamente assim que o Neo se sentia quando se conectava à Matrix.)

O Morpheus tinha a pílula vermelha para oferecer. A minha versão da pílula vermelha é o meu corpo cada vez mais sem artifícios femininos. Ela não é tão eficiente quanto a original, e precisa de tradução, mas vem me servindo.

O mundo pós-pílula vermelha é, francamente, uma porcaria. Eu me lembro de, após assistir Matrix, declarar que eu preferia continuar dentro na máquina a comer papa num submarino enferrujado (mesmo que fosse junto com o Keanu). Quando eu percebo a maneira que a mulher é retratada, e a eficiência desse tratamento para convencer as pessoas desde o berço de que “as coisas são assim mesmo”, eu fico brava, chateada e frustrada. Acreditar que o mundo era mais ou menos justo e que eu passava maquiagem porque eu gostava era muito mais confortável e relaxante.

Mas há suas compensações. Quando eu deixei de acreditar em monte de mensagens sobre como eu “devia ser”, comecei a prestar atenção em como eu quero ser, o que é muito mais importante (simplesmente porque tem mais chances de me fazer feliz). Passei a ser mais tolerante, comigo e com os outros. A perceber injustiças e preconceitos (e me expressar contra eles). A comer mais chocolate. E a saber que, num mundo imaginário em que o Maridinho não existisse e eu estivesse em um submarino enferrujado com o Keanu, a última das minhas preocupações seria o estado das minhas unhas.

"Vem que é nóis!"

5 comentários:

Fernanda disse...

Nossa, Lud! Também estou na mesma, sabe? E o pior... Em combinação com outra pílula vermelha que eu tomei. Estou percebendo como o mundo tenta convencer a gente que trabalhar até morrer é bom, que o trabalho deve ser a coisa mais importante da sua vida e que trabalhar, ganhar dinheiro e comprar são nossa razão de existir. Ando meio revoltada, e meio sem saber pra onde ir...
Dureza...

Delilah disse...

Concordo, concordo, concordo. O mundo era mais fácil antes.

lola aronovich disse...

Oi, Lud! Parabéns pelo intercâmbio na Austrália, que máximo! Acho que tem vezes que a gente se preocupa muito mais com a aparência do que as pessoas vão se preocupar...
Concordo com o que vc diz sobre feminismo ser como sair da matrix, ver tudo diferente. Mas ontem eu vi o vídeo que o Brasil apresentou em Copenhague e fiquei muito bem impressionada. Acho que houve um trabalho grande de NÃO mostrar mulher de biquini, na praia. Foi o vídeo com menos exploração sexual da imagem da mulher brasileira que eu vi em tempos recentes.

LudLeo disse...

Oi, Fê!
Acho que o seu comentário merece um post!

Ei, Isinha! Força aí!

Oi, Lola! Obrigada!
Parece que são vários vídeos. O que eu vi (e ao qual eu fiz referência) foi aquele com uma versão (linda, por sinal) em português e inglês da música "Aquele Abraço". Com certeza podia ter sido pior, e concordo que deve ter havido um esforço consciente para evitar a exploração sexual da mulher brasileira. Mas que tinha mulher de biquíni e mulher com sacola de compra, ah, isso tinha.

Isabella disse...

Oi Lud...
Acompanho há anos seu blog e também estou acompanhando seu feminismo por aqui.
Durante a faculdade, me interessei pela questão do gênero e este é um tema recorrente nos meus pensamentos...
Dia desses, fui a uma exposição em São Paulo chamada "Corpos Estranhos". Escrevi um texto sobre e gostaria de dividi-lo com você: http://isabellaviranoticia.blogspot.com/2009/08/no-chao-uma-mulher.html .
Dias depois, um amigo me indicou um documentário italiano que também divido aqui. Um dos melhores que vi este ano. Emocionante, chocante. Tenho certeza de que vai te render outros tantos posts e muitas outras questões...
http://www.ilcorpodelledonne.net/?page_id=89
Um beijo!