25.10.09

O Caso das Revistas Femininas

Sempre fui fã de revistas femininas. Quando fiz Comunicação Social, um dos meus objetivos era escrever para elas. Já defendi, com mais ardor do que análise, que o jornalismo feminino era, sim, jornalismo, e tão válido e digno quanto qualquer outro.

Cheguei mesmo a ter algumas matérias (duas, se não me engano) publicadas nelas. Até me pediram uma terceira, mas confesso que, na hora das entrevistas, refuguei: a pauta continha as expressões "truques sexuais", "prostitutas" e "usam com seus clientes". (Sim, é essa revista mesmo que vocês estão pensando.) Eu era ainda mais puritana do que sou hoje (uma característica que sempre deplorei) e acabei passando o serviço para uma das minhas melhores amigas, que deu conta da tarefa em dois tempos. (Acabo de perceber que a revista nunca mais me encomendou nada. Talvez a matéria cabeluda fosse um rito de iniciação no qual eu falhei miseravelmente.)

De uns tempos para cá, contudo, as revistas femininas têm me irritado e aborrecido em igual medida. Será que elas mudaram, eu mudei, ou todas as alternativas acima?

A impressão que eu tenho hoje quando as leio é que se eu não for jovem, magra, branca, bela, sedutora, de cabelos longos e lisos, com um ou mais homens em minha vida e várias roupas, cosméticos e acessórios novos em meu guarda-roupa, eu estou deixando de alcançar meu potencial total como mulher.

Pode ser que eu seja muito impressionável, e que outras pessoas leiam revistas femininas e não achem nada disso. Mas vejam só: tenho em mãos uma revista Nova de fevereiro de 2004 (é meio antiga, eu sei, mas é a que está disponível). Ela tem 146 páginas (contando as capas).

66 das páginas têm fotos de mulheres. 4 das mulheres (sendo que uma delas é o "antes" de uma transformação) têm cabelos não-lisos (sendo que ondas artísticas feitas sobre cabelo escovados contam como liso); 1 mulher é negra (numa foto pequena, entre duas amigas brancas). Não tem nenhuma mulher que aparente ter mais de 25 anos.

99 páginas são conteúdo. 39 são propaganda. 32 listam regras para o relacionamento com o sexo oposto, incluindo sexo. 34 páginas são dedicadas a matérias sobre diversos produtos. As páginas que faltam para fechar a conta incluem horóscopo, cartas das leitoras, endereços etc.

Deixando para depois a análise das matérias "como agarrar seu homem", talvez a maior maldade das revistas femininas seja a mensagem não-escrita é que você pode, sim, se transformar em uma das fotos da revista. É só consumir! A lista não tem fim: nessa única revista Nova, temos cera de depilação, tinta para o cabelo, regularizadores intestinais (?), roupas, perfumes, absorventes, jóias, bronzeadores, mais tinta para o cabelo, objetos de decoração, roupas, mais roupas, bolsas, sapatos, tratamentos de beleza exóticos como banho de pó de pérolas, xampu, creme anti-celulite, controlador de brilho da pele, creme antioxidante, creme com protetor solar para os cabelos, rímel, perfumes recém-lançados, corretivo, lápis de olho, batom, celular, miojo light, sombra de olho, brilho, chinelos bordados, sachê com ervas afrodisíacas, gel redutor, cosméticos para quem malha, sucos naturais, mouse decorado, revista de moda, revista feminina, pincéis de maquiagem, iluminador, blush líquido, curvex, creme de limpeza, sabonete facial, sabonete líquido, lenços antibrilho, loção tônica, demaquiante, hidratante para o rosto, hidrantante para o corpo, hidratante para as mãos, hidratante para a região dos olhos, sais de banho, exfoliante, loção para os pés, loção firmadora, ufa, cansei (mas tem mais).

O que até deve funcionar, para uma parcela da população quem tem tempo, dinheiro e genética a seu favor. Mas e se você não for (ou não quiser ser, ou não puder ser) jovem, magra, branca, bela, sedutora, de cabelos longos e lisos, com um ou mais homens em sua vida e várias roupas, cosméticos e acessórios novos em seu guarda-roupa? A mulher ideal das revistas femininas é um retrato bastante redutor, não? (Sim, eu sei que isso tudo vem a ver com o capitalismo, e com o fato que a revista custa dinheiro para ser produzida, que o dinheiro vem dos anunciantes. Mas será que tem de ser assim mesmo?)

Um amigo sugeriu que eu simplesmente deixasse de lê-las. Seria uma solução, sem dúvida. Só que essa mesma revista tem matérias sobre serviço voluntário, auto-exame de pele e mamas, dicas para progredir na carreira, formas de diminuir o risco de ter câncer, perfis de profissionais que ganham para viajar, educação financeira. Outras revistas femininas também trazem pautas que me interessam, como saúde, relacionamentos familiares, mulheres em posições de poder. As revistas de variedades, como a Veja, cobrem parte desses assuntos, mas geralmente o enfoque é neutro (ou seja, masculino). Então as revistas femininas têm, sim, a sua utilidade para as mulheres.

Minha conclusão é que as revistas femininas brasileiras atuais são basicamente esquizofrênicas. Matéria sobre auto-estima de um lado e modelos jovens, magras, brancas, de cabelo liso etc. de outro. Ecologia X consumismo. Saúde X horóscopo. Mulheres na política X celebridades.

O que fazer, então? Abandoná-las de todo? Ler só as partes que eu "aprovo"? Mas se eu comprá-las vou estar financiando todas as partes, não vou? E apesar dos pesares eu não consigo desaprová-las totalmente. Não sei se, caso todas elas fechassem, as mulheres estariam mais bem-servidas. Porque elas, bem ou mal, são um espaço de manifestação feminina.

Acho que precisamos é de uma revista feminina feminista. Que não pergunte para a futura candidata à presidência do Brasil se ela perdeu peso e como - ou que pergunte a mesma coisa aos futuros candidatos, antes de interrogá-los como sobre eles conciliam a vida familiar com a política e qual é sua receita preferida. Que mostre mulheres de todos os tipos e cores. Que não faça perguntas tolas a celebridades bobonas. E que acabe com os horóscopos!

8 comentários:

Daniela disse...

Um plano para dominar o mundo: fundar uma revista! Ou pelo menos, fazer um blog-revista variada...

Daniela disse...

Sem contar que, normalmente, capa de Nova tem mulher mais pelada que capa de Playboy ;)
Aliás, porque não tem homem em capa de revista em poses sensuais? Só tem homem em capa da Veja, de terno, contando como é bem sucedido. Homem não se presta a ser decorativo, né?

Anônimo disse...

Ah, não... você tá ficando radical d-e-m-a-i-s! rsrsrs
Nada radical é muito bom, pense nisso...
bjo, Chris

Bela disse...

Não sei o que o pobre do horóscopo tem a ver com isso, não sabia que era 'coisa de mulérzinha'! =)
Tenho um palpite que se você comprar essas revistas Zen, Bem Viver e sei lá mais o quê, elas vão ter as reportagens que você quer (e mais feng-shui, reeducação alimentar para viver melhor, meditação e outras coisas interessantes! =)

LudLeo disse...

Sim, Dani, homem não se presta a ser decorativo!

Chris, eu sei que eu sou radical! Ando achando que só o radicalismo promove a mudança.

Bela,
a minha oposição ao horóscopo é sua completa falta de base científica.
Quanto as revistas zen da vida, duvido que elas tragam pautas políticas e profissionais!

Julia disse...

Oi querida!
Sou estudante de Jornalismo e estou fazendo, como TCC, um exemplar piloto de uma revista nestes moldes. Eu também tenho uma relação de amor e ódio com revistas femininas. Gostei muito do que escreveste.
Por que não me escreves e trocamos umas idéias?
juliamanzi@gmail.com

Geraldo Brito (Dado) disse...

Pertinente essasuas análise das revistas femininas.

Magalli Sampaio disse...

Estou nessa mesma vibe que você! Tenho tanto desinteressa pela falta de assunto dessas revistas que ganhei uma, francesa (sou professora de francês), de uma aluna e ainda nem encostei. Nem me reconheço!