28.10.09

O Caso do Cavalheirismo

O Maridinho sempre foi muito cavalheiro. Já meu pai costuma não carregar a mala da minha mãe e, tendo oportunidade, nem a própria mala.

Tem gente que diz que o cavalheirismo morreu. Outros bradam pela necessidade de seu retorno. E eu? Eu sei lá.

Entendo que o cavalheirismo possa ser encarado como gentileza. Seriam sinônimos de cavalheiro as palavras “educado” e “solícito”. Concordo plenamente que é bom conviver com uma pessoa que tenha essas qualidades.

Entretanto, tanto aqueles que resmugam que o cavalheirismo desapareceu quanto os que exigem sua volta costumam encará-lo com um significado mais específico, isto é, aquele conjunto determinado de ações do homem para com a mulher. E esse cavalheirismo me desagrada profundamente: pra variar, ela fica lá, como uma pata choca, esperando que o homem faça alguma coisa.

Além disso, tem alguns itens da receita pronta do cavalheiro que não fazem muito sentido, como aquela história de que o homem deve pagar a conta do restaurante, levar flores e abrir a porta do carro. Poxa, se eu também trabalho e também tenho dinheiro, não vejo razão para ele pagar tudo (existe a tese “quem convida paga”, que me parece mais lógica. E eu sempre gosto de rachar. Agora, se o Bill Gates me chamar para jantar no restaurante do Alain Ducasse em New York, eu não vou brigar com ele pelo privilégio de pagar a conta, que deve ser equivalente a muitos dias do meu salário. Mas eu levaria um saquinho de balas Chita para demonstrar minha gratidão). Eu também posso dar flores (embora tanto o Maridinho quanto eu prefiramos oferendas em chocolate). E se eu estou dirigindo (o que é raro, admito, porque eu dirijo mal, me perco com facilidade e tenho um talento incomum para exterminar espelhos retrovisores), por que não abrir a porta para o passageiro?

Em suma, eu também posso (e devo, acredito) ser cavalheira com o Maridinho, isto é, educada e solícita. E eu sou. Mas quando aquele povo lá de cima fala em cavalheirismo, elas não estão pensando em mim, estão?

E tem outra: será que o cavalheirismo é mesmo bom para mim? Vejam só: o Maridinho é bem mais alto e forte do que eu. Quando vamos ao mercado, ele leva as sacolas de refrigerantes e eu levo as sacolas de guardanapos. É claro que isso me é agradável e confortável. Só que o resultado é que eu não uso meus músculos e fico ainda mais fraquinha que já sou.

Por outro lado, por enquanto não me sinto apta a carregar para casa o garrafão de água mineral de 20 l, que pesa quase metade do que eu (e talvez eu nunca adquira essa capacidade, mesmo depois do curso de Krav Magá que estou ambicionando fazer).

Pensando bem, não tenho nada contra uma divisão de trabalhos racional. Isto é, baseada nos fatos e na situação e não nos estereótipos. Assim, acho que faz sentido que, na hora de pagar o jantar, quem ganhe mais pague mais. Se a porta está fechada, que quem esteja na frente abra. Quando se quer um desconto, que quem tenha mais jeito peça. É verdade que o Leo costuma carregar mais peso que eu, mas eu fizer compras com uma pessoa mais fraca, sou eu quem vai carregar mais, é claro. Quando a gente viaja, o Leo bússola humana cuida do transporte e a Lud tagarela da comunicação. E o meu pai é folgado mesmo.

É claro que é muito mais fácil mulheres e homens terem seus papéis pré-determinados e todo mundo obedecer às regrinhas. Mas eu acho que papéis pré-determinados não estão com nada, principalmente quando a sociedade muda e eles não acompanham.

Não estou querendo dizer que eu quero que o cavalheirismo morra e que todo mundo seja grosso. Ok, o cavalheirismo de forminha de torta eu quero que morra, sim. Só que também acho que todo mundo deve ser gentil, polido e educado. Cada um do seu jeito e do jeito que melhor funcionar.

7 comentários:

Daniela disse...

Mas eu ainda não acho razoável que mulheres estressem e se revoltem se alguém (homem) abrir a porta pra elas. É só passar, pô, e andar mais rápido da próxima vez.
E contanto que sejam gentis comigo, não ligo de serem homens ou mulheres =)

Anônimo disse...

Acho que cavalheirismo tem a ver um pouco com educação... por exemplo, se você está carregando uma mala pesadíssima, e não está com seu marido, mas sim com um colega, não seria extremamente gentil da parte dele se adiantar e pegar a mala da sua mão (ja aconteceu comigo, e me deixaram carregar a mala jumbo sozinha)? Ou esperar você sair do elevador segurando a porta pra que ela não feche em vc (coisa que já aconteceu comigo também, e dói, muito!)? Isso é mais ser educado do que cavalheiro, e isso eu acho muito importante e legal! =D bjinho, Chris

Bela disse...

Mas é muuuuuuuito chato quando você tá carregando uma sacolinha com um livro (e um livro pequeno) e fica um mala tentando carregar a sacola pra você. Gente, eu não quebro não!

Anônimo disse...

Para vc que está nessa onda de feminismo:
"Aluna da Uniban ameaçada de estupro no campus por usar minissaia.
Uma estudante do curso de Turismo da Faculdade Uniban, unidade de São Bernardo do Campo (SP), teria sofrido ameaça de estupro de outros alunos por estar usando minissaia e se portando de modo "provocativo".
Ouvido o Secretário da Universidade, este também entendeu que a culpa ea da aluna."
Fonte: http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/news/2009/10/28/226552-aluna-da-uniban-ameacada-de-estupro-no-campus-por-usar-minissaia

LudLeo disse...

Dani,
bom senso é tudo nessa vida, né?

Chris,
também acho que educação é melhor que cavalheirismo!

Bela,
deixa ele pegar a sacolinha e, dois minutos depois, pega a sacolinha de volta, dizendo a mesma frase que ele disse. Vamos ver se a ficha cai.

Anônimo,
assino embaixo do que a Lola disse:
http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2009/10/turba-enraivecida-da-uniban.html

Beijos para todas!

lola aronovich disse...

Lud, seus posts estão ótimos, todos eles. Estou adorando vir aqui todos os dias, e me coçando pra incluir o seu link no meu blogroll. Não sei por que estou demorando. Acho que é porque tenho a impressão que vc vai mudar o nome do blog logo logo. Afinal, o Leo nunca aparece aqui, não? E aí, quais são seus planos?
Abração!

LudLeo disse...

Oi, Lola!

Obrigada! Eu ia ficar muito feliz de constar no seu blogroll!

Quanto ao nome do blogue, eu realmente ando refletindo sobre o assunto. O Leo apoia a causa, mas realmente não tem se manifestado aqui.

Beijos!